A última batalha da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra não foi um assalto a um morro nem a tomada de uma cidade. Entre 26 e 29 de abril de 1945, em Collecchio e Fornovo di Taro, na província de Parma, norte da Itália, a FEB se pôs na saída de um vale por onde uma coluna alemã precisava passar, e esperou que o adversário entendesse a posição.
Ele entendeu devagar. Houve contato, um padre levando recados, um ultimato com prazo de duas horas deixado vencer, um ataque e uma madrugada de negociação. No fim, a 148ª Divisão de Infantaria alemã se rendeu incondicionalmente, com o general e o estado-maior: 14.779 homens contados, 4.000 cavalos, 80 canhões. Na Campanha da Itália, nenhuma outra divisão alemã foi capturada inteira, com o comando, por uma força aliada.
FichaFicha da batalha
| Batalha | Collecchio–Fornovo: o cerco se fecha em Collecchio, a rendição acontece no vale do Taro, em torno de Fornovo di Taro | 2+ fontes |
|---|---|---|
| Forças brasileiras | 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária: 6º Regimento de Infantaria (Regimento Ipiranga), com o peso da negociação e do ataque; 11º e 1º Regimentos de Infantaria; Esquadrão de Reconhecimento do capitão Pitaluga no primeiro contato | 2+ fontes |
| Efetivo brasileiro empenhado | não registrado nas fontes consultadas | sem registro |
| Apoio aliado | blindados americanos em apoioAs fontes não concordam sobre qual unidade blindada americana estava presente; por isso nenhuma é nomeada aqui. | diverge |
| Forças do Eixo | 148ª Divisão de Infantaria alemã, com elementos da 90ª Divisão Panzergrenadier; 1ª Divisão Bersaglieri "Italia" e 4ª Divisão Alpini "Monterosa", da Itália fascista | 2+ fontes |
| Comando brasileiro | general Mascarenhas de Moraes (divisão); coronel Nelson de Melo (6º RI), que deu o ultimato e ordenou o ataque | 2+ fontes |
| Comando alemão | Generalleutnant Otto Fretter-Pico (148ª D.I.); major W. Kuhn, chefe do estado-maior, que conduziu a negociação | 2+ fontes |
| Terreno | o vale do rio Taro, corredor entre serras com a estrada no fundo, que desce dos Apeninos para a planície do Pó; Collecchio fica na saída norte, a sudoeste de Parma | 2+ fontes |
| Objetivo | fechar a rota de fuga da 148ª para o norte, em vez de tomar posições uma a uma | 2+ fontes |
| Duração | 26 a 29 de abril de 1945; a coleta de prisioneiros se estende até as 18h de 30 de abril | 2+ fontes |
| Baixas brasileiras | houve mortos brasileiros; não há número fechado e confiável para o conjunto da batalha | sem registro |
| Baixas alemãs | não registradas nas fontes consultadas | sem registro |
| Prisioneiros | 14.779, contagem formal da rendição (DGP do Exército, Blog do Exército, Forças Terrestres, Wikipédia em português)Variantes: 14.777 (Jornalismo de Guerra), "cerca de 15 mil" (nota do Blog do Exército), faixa de 14.700 a 15.500 (Wikipédia em inglês). | 2+ fontes |
| Material capturado | 4.000 cavalos, 80 canhões, muita munição e centenas de veículos de tração animal; viaturas: 1.500 ou 2.500, conforme a fonteBlog do Exército e as duas Wikipédias dizem 1.500 viaturas; DefesaNet, Forças Terrestres e DGP dizem 2.500. Nenhuma fonte explica a diferença. | diverge |
| Resultado | rendição incondicional da 148ª Divisão, com o comando: a única divisão alemã capturada inteira por uma força aliada na Campanha da Itália | 2+ fontes |
| O depois | em 30 de abril, às 18h, Fretter-Pico se apresenta com 31 oficiais de estado-maior; Fornovo é a última batalha da FEB na guerra | 2+ fontes |
Lance 1O tabuleiro: um funil com a saída ao norte
Em abril de 1945 a frente alemã na Itália cede, e as divisões que estavam nos Apeninos precisam descer para a planície do Pó e seguir para o norte antes que as estradas sejam cortadas. Na região de Parma, quem desce da montanha tem poucas saídas, e o vale do rio Taro é uma delas.
O vale é um corredor entre serras, com a estrada no fundo. É bom para andar depressa e péssimo para ser surpreendido: quem está dentro não tem para onde se desviar. Na boca norte do corredor, já na planície e a sudoeste de Parma, fica Collecchio.
Esse é o dado que decide o episódio antes de qualquer tiro. Em um funil, quem controla a saída não precisa atacar ninguém. Basta estar lá primeiro e deixar claro que vai ficar.
Por isso a batalha tem dois nomes. Costuma ser lembrada como Fornovo, onde a coluna alemã terminou encurralada, mas o nome mais preciso é Collecchio–Fornovo: Collecchio é onde o cerco se fecha, e Fornovo, rio acima, é onde a peça cercada fica parada sem ter para onde ir.
Lance 2As peças: uma coluna que não manobra
Dentro do funil vem a 148ª Divisão de Infantaria alemã, do Generalleutnant Otto Fretter-Pico, com elementos da 90ª Divisão Panzergrenadier e duas divisões da Itália fascista, a Bersaglieri "Italia" e a Alpini "Monterosa". O inventário do fim diz o que era essa coluna: 4.000 cavalos, 80 canhões de diversos calibres e centenas de veículos de tração animal.
Uma força assim, numa estrada de vale, é comprida e lenta. Não sai da estrada, não muda de direção com facilidade. Ela avança ou para. Do ponto de vista do tabuleiro, é uma peça poderosa com pouquíssimos lances disponíveis.
Do outro lado vem a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, do general Mascarenhas de Moraes, descendo em perseguição. O Esquadrão de Reconhecimento do capitão Pitaluga abre o contato; atrás vêm os regimentos de infantaria, e quem carrega o peso dos quatro dias seguintes é o 6º Regimento de Infantaria, o Regimento Ipiranga, do coronel Nelson de Melo. Os 11º e 1º Regimentos também entram.
Lance 326 de abril: sentar na casa de saída
Em 26 de abril, depois de dois dias de marcha e combate, a FEB chega a Collecchio e encontra a 148ª posicionada ali. Há choque de tropas entre o 6º RI e os alemães já nesse primeiro dia.
O lance é este: os brasileiros não vão buscar a coluna para destruí-la; vão para a frente dela e ocupam a saída. Com blindados americanos em apoio, a coluna passa a ter serra dos dois lados e brasileiros na única porta que interessava.
O que esse lance exige não é força, é velocidade e direção. A FEB precisava chegar à saída antes da cabeça da coluna e ter infantaria suficiente ali para que passar por cima custasse caro. Uma vez instalada, cada hora jogava a favor de quem estava na porta: a coluna dentro do vale gastava tempo, e a frente alemã atrás dela continuava a recuar.
A peça que captura, aqui, não é a que dá o bote. É a que ocupa a casa para onde o adversário precisava ir.
Lance 427 e 28 de abril: o padre, a pergunta e o relógio
Por volta das 15h de 27 de abril, o comandante do 6º RI não manda atacar: manda um recado. O emissário é o padre Dom Alessandro Cavalli, que atravessa as linhas propondo a rendição. Às 20h30 ele volta com a resposta do comando alemão, que não recusa. Pede as condições.
Um comando que pergunta as condições já leu a posição. Às 9h do dia 28 o padre atravessa de novo, agora com o ultimato formal do coronel Nelson de Melo e um prazo de duas horas. Antes do meio-dia chega a resposta pelo major W. Kuhn, chefe do estado-maior alemão: eles aguardam instruções.
Não é sim nem não. É tempo. Fretter-Pico tinha pedido prazo, ganhado prazo, e usava o prazo para esperar ordens que não chegavam, enquanto a frente alemã inteira desmoronava atrás dele. Em xadrez, é o jogador que deixa o relógio correr numa posição que só piora.
Lance 513h de 28 de abril: o ataque que prova o cerco
O ultimato venceu sem resposta, e às 13h o comandante brasileiro manda atacar. É a única coisa que mantinha o ultimato de pé: um cerco só funciona se quem está dentro acredita nele, e um prazo que vence sem consequência transforma o cerco em blefe.
O ataque não tinha como objetivo tomar Fornovo. Tinha como objetivo mostrar que a saída estava fechada de verdade. O combate daquele dia é descrito pelas fontes como ferrenho, e brasileiros morreram nele.
A partir dali a conta do lado alemão muda de natureza. Já não se trata de como escapar, e sim de quanto custa continuar tentando.
Vale olhar a sequência inteira, porque é ela que responde a quem diz que não houve batalha: proposta às 15h do dia 27, pedido de condições às 20h30, ultimato às 9h do dia 28, resposta evasiva antes do meio-dia, ataque às 13h. Nove horas depois do ataque, o mesmo major que pedia instruções volta pedindo para negociar. O que mudou entre uma visita e outra foi o ataque.
Lance 6Da madrugada ao dia 30: a rendição
Às 22h do mesmo dia 28, o major Kuhn reaparece, agora para negociar a rendição. A negociação atravessa a madrugada, da meia-noite às 5h30 de 29 de abril. Ao meio-dia há nova reunião, com o general Mascarenhas de Moraes presente, e por volta das 13h começa a rendição, com ambulâncias retirando os feridos alemães.
A rendição é incondicional. A coleta dos prisioneiros leva mais de um dia e só termina às 18h de 30 de abril, quando Fretter-Pico se apresenta com 31 oficiais do seu estado-maior.
A contagem final registra 14.779 prisioneiros, 4.000 cavalos e 80 canhões, além de muita munição e centenas de veículos de tração animal. Não é uma unidade que se desfaz aos pedaços: é uma divisão entregue de uma vez, com o comando junto.
O tamanho do feito está no escopo, e ele precisa ser dito com precisão. Da invasão da Sicília, em julho de 1943, à ofensiva da primavera de 1945, a 148ª é a única divisão alemã capturada inteira, com o comando junto, por uma força aliada na Campanha da Itália. Na guerra como um todo, o superlativo não se sustenta; no teatro italiano, sim.
VereditoPor que deu no que deu
Deu certo porque a FEB jogou a casa, não a peça. Da invasão da Sicília, em julho de 1943, até a ofensiva da primavera de 1945, divisões alemãs foram duramente batidas na Itália, mas todas conseguiram recuar para o norte sem se render. Em Fornovo a diferença não foi o dano causado; foi que os brasileiros ocuparam a casa da fuga antes de a coluna chegar a ela.
O erro do outro lado foi de leitura do tempo. Fretter-Pico entendeu a posição na noite de 27, quando pediu as condições, e ainda assim tratou o prazo como recurso. Às 22h do dia 28, quando Kuhn voltou para negociar, a posição era pior do que às 9h da manhã, porque no meio havia um ataque que provava que a porta estava fechada.
É a diferença entre machucar uma peça e capturá-la. Não houve xeque-mate por assalto: houve a posição em que o adversário deixa de ter lance, olha o tabuleiro e deita o rei.
MitosO que se conta e o que o registro mostra
- O que se conta
Não houve batalha em Fornovo: os alemães já estavam acabados e se entregaram sozinhos, num simples encontro de tropas.
O que o registro mostraA versão vem dos derrotados. Lotar Mull, ex-oficial alemão, declarou que não houve batalha de Fornovo, só um encontro de tropas, e a filha de Fretter-Pico contou que o pai chamava o episódio de "aquilo" e achava graça na comemoração brasileira (relatos reunidos pelo Jornalismo de Guerra). O registro mostra quatro dias de operação, choque de tropas em Collecchio em 26 de abril, um ultimato ignorado, um ataque ordenado às 13h de 28 de abril, mortos brasileiros e uma rendição incondicional de 14.779 homens. Uma divisão acabada demais para lutar não precisa de prazo, de padre emissário nem de uma madrugada de negociação.
- O que se conta
Cerca de 20 mil alemães se renderam à FEB em Fornovo.
O que o registro mostraSão três números diferentes medindo três coisas diferentes. A contagem formal da rendição em Collecchio–Fornovo é 14.779. O "cerca de 20 mil" que aparece em parte da imprensa descreve os homens encaminhados às áreas de concentração de Ponte Scodogna. E os 20.573 citados em algumas matérias são o total de prisioneiros feitos pela FEB na campanha inteira, não em Fornovo.
- O que se conta
Foi a única divisão alemã capturada inteira em toda a Segunda Guerra.
O que o registro mostraO superlativo tem escopo, e o escopo é a Campanha da Itália: a 148ª foi a única divisão alemã capturada inteira, com o comando junto, por uma força aliada naquele teatro, da Sicília em 1943 à ofensiva final de 1945. Estendê-lo à guerra inteira é afirmar o que as fontes não dizem.
PerguntasPerguntas frequentes
O que aconteceu em Fornovo di Taro na Segunda Guerra?
Entre 26 e 29 de abril de 1945, a FEB ocupou a saída do vale do Taro e encurralou a coluna da 148ª Divisão de Infantaria alemã. Depois de um ultimato, um ataque e uma madrugada de negociação, a divisão se rendeu incondicionalmente, com o general e o estado-maior.
Quantos alemães se renderam à FEB em Fornovo di Taro?
A contagem formal da rendição registra 14.779 prisioneiros, além de 4.000 cavalos e 80 canhões. O número de cerca de 20 mil que circula descreve os homens levados às áreas de concentração de Ponte Scodogna, e os 20.573 são o total de prisioneiros da FEB na campanha inteira.
Quando foi a rendição de Fornovo di Taro?
A rendição começou por volta das 13h de 29 de abril de 1945, depois de uma negociação que foi da meia-noite às 5h30. A coleta dos prisioneiros só terminou às 18h de 30 de abril, quando Fretter-Pico se apresentou com 31 oficiais do estado-maior.
Quem comandou a FEB em Fornovo di Taro?
A divisão era do general Mascarenhas de Moraes; o coronel Nelson de Melo, do 6º Regimento de Infantaria, deu o ultimato e ordenou o ataque. Do lado alemão, a 148ª Divisão era do Generalleutnant Otto Fretter-Pico, e quem negociou foi o major W. Kuhn.
Houve mesmo batalha em Fornovo di Taro?
Sim. A versão de que não houve batalha vem dos derrotados; o registro mostra choque de tropas em Collecchio em 26 de abril, um ultimato ignorado, um ataque às 13h de 28 de abril e mortos brasileiros antes da rendição.
Por que a FEB capturou uma divisão alemã inteira em Fornovo
MaisLeia também
- Episódio 01 · A FEB na ItáliaMonte Castello24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945
- Episódio 02 · A FEB na ItáliaMontese14 a 17 de abril de 1945
- Episódio 14 · Segunda Guerra Mundial, 1944Monte Cassino17 de janeiro a 18 de maio de 1944
Tema A FEB na Itália
FontesFontes
- Departamento-Geral do Pessoal do Exército Brasileiro, "29 de abril — Conquista de Fornovo e rendição da 148ª Divisão de Infantaria Alemã"
- Blog do Exército Brasileiro, "80 anos da rendição da 148ª Divisão de Infantaria Alemã"
- Blog do Exército Brasileiro, "Vitória da FEB em Fornovo — 28 Abr 1945"
- Forças Terrestres, "Há 73 anos, a 148ª Divisão de Infantaria Alemã se rendia à FEB"
- DefesaNet, "Rendição da 148ª Divisão de Infantaria alemã à FEB"
- Jornalismo de Guerra, "FEB: em Fornovo, rendição era incondicional, mas vencidos fizeram pouco caso anos depois"
- Wikipédia em português, "Batalha de Fornovo di Taro" — pt.wikipedia.org
- Wikipedia em inglês, "Battle of Collecchio" — en.wikipedia.org
Imagens
- Fig. 01 — Fornovo di Taro e o vale do Taro na carta Italy 1:50.000 do Army Map Service, folha 73-III Salsomaggiore, de 1944. A estrada nacional 62 corre pelo fundo do vale, rumo à planície do Pó.: Army Map Service, U.S. Army (Italy 1:50.000, série 4229, folha 73-III Salsomaggiore) · Domínio público
- Fig. 02 — Collecchio, na saída do vale, e Parma na carta Italy 1:50.000 do Army Map Service, folha 73-II Parma, de 1944. Foi em Collecchio que a FEB se pôs na frente da coluna alemã.: Army Map Service, U.S. Army (Italy 1:50.000, série 4229, folha 73-II Parma) · Domínio público
- Fig. 03 — O vale do Taro visto de Pietramogolana, em Berceto, a montante de Fornovo. Foto de 2022: a vegetação e as construções são de hoje, mas o corredor entre as serras é o mesmo.: Parma1983 · CC BY-SA 4.0
- Fig. 04 — Parelhas de cavalos e carroças alemãs numa estrada italiana, à noite, em 1944. Não é a 148ª nem o vale do Taro: é o tipo de coluna, puxada a cavalo, que não sai da estrada e não manobra.: Bundesarchiv, Bild 101I-315-1111-11 / Lüthge · CC BY-SA 3.0 DE
- Fig. 05 — Prisioneiros alemães levados para a retaguarda do 5º Exército em Campidello, Itália, em 15 de abril de 1945, duas semanas antes de Fornovo. Não são prisioneiros da FEB: a foto mostra a mesma ofensiva final, em outro setor.: U.S. Army Signal Corps (SC 205360) · Domínio público
- Fig. 06 — O general Mascarenhas de Moraes, comandante da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, em Montese. Ele estava presente na reunião de 29 de abril que abriu a rendição da 148ª.: autor desconhecido · Domínio público
