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Xadrez Bélico
Carta militar topográfica de 1944 com o rio Taro em largo leito trançado, a cidade de Fornovo di Taro e a estrada nacional 62 seguindo pelo vale. Fornovo di Taro e o vale do Taro na carta Italy 1:50.000 do Army Map Service, folha 73-III Salsomaggiore, de 1944. A estrada nacional 62 corre pelo fundo do vale, rumo à planície do Pó. — Army Map Service, U.S. Army (Italy 1:50.000, série 4229, folha 73-III Salsomaggiore) · Domínio público
Episódio 03 · A FEB na Itália

Fornovo di Taro

26 a 29 de abril de 1945 · Collecchio e Fornovo di Taro, Parma, Emília-Romanha, Itália

Como uma divisão alemã inteira, com o comando junto, se rendeu à FEB no vale do Taro?

A última batalha da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra não foi um assalto a um morro nem a tomada de uma cidade. Entre 26 e 29 de abril de 1945, em Collecchio e Fornovo di Taro, na província de Parma, norte da Itália, a FEB se pôs na saída de um vale por onde uma coluna alemã precisava passar, e esperou que o adversário entendesse a posição.

Ele entendeu devagar. Houve contato, um padre levando recados, um ultimato com prazo de duas horas deixado vencer, um ataque e uma madrugada de negociação. No fim, a 148ª Divisão de Infantaria alemã se rendeu incondicionalmente, com o general e o estado-maior: 14.779 homens contados, 4.000 cavalos, 80 canhões. Na Campanha da Itália, nenhuma outra divisão alemã foi capturada inteira, com o comando, por uma força aliada.

FichaFicha da batalha

BatalhaCollecchio–Fornovo: o cerco se fecha em Collecchio, a rendição acontece no vale do Taro, em torno de Fornovo di Taro2+ fontes
Forças brasileiras1ª Divisão de Infantaria Expedicionária: 6º Regimento de Infantaria (Regimento Ipiranga), com o peso da negociação e do ataque; 11º e 1º Regimentos de Infantaria; Esquadrão de Reconhecimento do capitão Pitaluga no primeiro contato2+ fontes
Efetivo brasileiro empenhadonão registrado nas fontes consultadassem registro
Apoio aliadoblindados americanos em apoioAs fontes não concordam sobre qual unidade blindada americana estava presente; por isso nenhuma é nomeada aqui.diverge
Forças do Eixo148ª Divisão de Infantaria alemã, com elementos da 90ª Divisão Panzergrenadier; 1ª Divisão Bersaglieri "Italia" e 4ª Divisão Alpini "Monterosa", da Itália fascista2+ fontes
Comando brasileirogeneral Mascarenhas de Moraes (divisão); coronel Nelson de Melo (6º RI), que deu o ultimato e ordenou o ataque2+ fontes
Comando alemãoGeneralleutnant Otto Fretter-Pico (148ª D.I.); major W. Kuhn, chefe do estado-maior, que conduziu a negociação2+ fontes
Terrenoo vale do rio Taro, corredor entre serras com a estrada no fundo, que desce dos Apeninos para a planície do Pó; Collecchio fica na saída norte, a sudoeste de Parma2+ fontes
Objetivofechar a rota de fuga da 148ª para o norte, em vez de tomar posições uma a uma2+ fontes
Duração26 a 29 de abril de 1945; a coleta de prisioneiros se estende até as 18h de 30 de abril2+ fontes
Baixas brasileirashouve mortos brasileiros; não há número fechado e confiável para o conjunto da batalhasem registro
Baixas alemãsnão registradas nas fontes consultadassem registro
Prisioneiros14.779, contagem formal da rendição (DGP do Exército, Blog do Exército, Forças Terrestres, Wikipédia em português)Variantes: 14.777 (Jornalismo de Guerra), "cerca de 15 mil" (nota do Blog do Exército), faixa de 14.700 a 15.500 (Wikipédia em inglês).2+ fontes
Material capturado4.000 cavalos, 80 canhões, muita munição e centenas de veículos de tração animal; viaturas: 1.500 ou 2.500, conforme a fonteBlog do Exército e as duas Wikipédias dizem 1.500 viaturas; DefesaNet, Forças Terrestres e DGP dizem 2.500. Nenhuma fonte explica a diferença.diverge
Resultadorendição incondicional da 148ª Divisão, com o comando: a única divisão alemã capturada inteira por uma força aliada na Campanha da Itália2+ fontes
O depoisem 30 de abril, às 18h, Fretter-Pico se apresenta com 31 oficiais de estado-maior; Fornovo é a última batalha da FEB na guerra2+ fontes
2+ fontes Confirmado em duas ou mais fontes independentes.1 fonte Uma fonte só; o texto diz qual.diverge As fontes discordam; mostramos as versões e não escolhemos.sem registro Ninguém registrou. Dizemos isso em vez de inventar.

Lance 1O tabuleiro: um funil com a saída ao norte

Em abril de 1945 a frente alemã na Itália cede, e as divisões que estavam nos Apeninos precisam descer para a planície do Pó e seguir para o norte antes que as estradas sejam cortadas. Na região de Parma, quem desce da montanha tem poucas saídas, e o vale do rio Taro é uma delas.

O vale é um corredor entre serras, com a estrada no fundo. É bom para andar depressa e péssimo para ser surpreendido: quem está dentro não tem para onde se desviar. Na boca norte do corredor, já na planície e a sudoeste de Parma, fica Collecchio.

Esse é o dado que decide o episódio antes de qualquer tiro. Em um funil, quem controla a saída não precisa atacar ninguém. Basta estar lá primeiro e deixar claro que vai ficar.

Por isso a batalha tem dois nomes. Costuma ser lembrada como Fornovo, onde a coluna alemã terminou encurralada, mas o nome mais preciso é Collecchio–Fornovo: Collecchio é onde o cerco se fecha, e Fornovo, rio acima, é onde a peça cercada fica parada sem ter para onde ir.

FIG. 02Collecchio, na saída do vale, e Parma na carta Italy 1:50.000 do Army Map Service, folha 73-II Parma, de 1944. Foi em Collecchio que a FEB se pôs na frente da coluna alemã.Army Map Service, U.S. Army (Italy 1:50.000, série 4229, folha 73-II Parma) · Domínio público

Lance 2As peças: uma coluna que não manobra

Dentro do funil vem a 148ª Divisão de Infantaria alemã, do Generalleutnant Otto Fretter-Pico, com elementos da 90ª Divisão Panzergrenadier e duas divisões da Itália fascista, a Bersaglieri "Italia" e a Alpini "Monterosa". O inventário do fim diz o que era essa coluna: 4.000 cavalos, 80 canhões de diversos calibres e centenas de veículos de tração animal.

Uma força assim, numa estrada de vale, é comprida e lenta. Não sai da estrada, não muda de direção com facilidade. Ela avança ou para. Do ponto de vista do tabuleiro, é uma peça poderosa com pouquíssimos lances disponíveis.

Do outro lado vem a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, do general Mascarenhas de Moraes, descendo em perseguição. O Esquadrão de Reconhecimento do capitão Pitaluga abre o contato; atrás vêm os regimentos de infantaria, e quem carrega o peso dos quatro dias seguintes é o 6º Regimento de Infantaria, o Regimento Ipiranga, do coronel Nelson de Melo. Os 11º e 1º Regimentos também entram.

FIG. 03O vale do Taro visto de Pietramogolana, em Berceto, a montante de Fornovo. Foto de 2022: a vegetação e as construções são de hoje, mas o corredor entre as serras é o mesmo.Parma1983 · CC BY-SA 4.0

Lance 326 de abril: sentar na casa de saída

Em 26 de abril, depois de dois dias de marcha e combate, a FEB chega a Collecchio e encontra a 148ª posicionada ali. Há choque de tropas entre o 6º RI e os alemães já nesse primeiro dia.

O lance é este: os brasileiros não vão buscar a coluna para destruí-la; vão para a frente dela e ocupam a saída. Com blindados americanos em apoio, a coluna passa a ter serra dos dois lados e brasileiros na única porta que interessava.

O que esse lance exige não é força, é velocidade e direção. A FEB precisava chegar à saída antes da cabeça da coluna e ter infantaria suficiente ali para que passar por cima custasse caro. Uma vez instalada, cada hora jogava a favor de quem estava na porta: a coluna dentro do vale gastava tempo, e a frente alemã atrás dela continuava a recuar.

A peça que captura, aqui, não é a que dá o bote. É a que ocupa a casa para onde o adversário precisava ir.

FIG. 04Parelhas de cavalos e carroças alemãs numa estrada italiana, à noite, em 1944. Não é a 148ª nem o vale do Taro: é o tipo de coluna, puxada a cavalo, que não sai da estrada e não manobra.Bundesarchiv, Bild 101I-315-1111-11 / Lüthge · CC BY-SA 3.0 DE

Lance 427 e 28 de abril: o padre, a pergunta e o relógio

Por volta das 15h de 27 de abril, o comandante do 6º RI não manda atacar: manda um recado. O emissário é o padre Dom Alessandro Cavalli, que atravessa as linhas propondo a rendição. Às 20h30 ele volta com a resposta do comando alemão, que não recusa. Pede as condições.

Um comando que pergunta as condições já leu a posição. Às 9h do dia 28 o padre atravessa de novo, agora com o ultimato formal do coronel Nelson de Melo e um prazo de duas horas. Antes do meio-dia chega a resposta pelo major W. Kuhn, chefe do estado-maior alemão: eles aguardam instruções.

Não é sim nem não. É tempo. Fretter-Pico tinha pedido prazo, ganhado prazo, e usava o prazo para esperar ordens que não chegavam, enquanto a frente alemã inteira desmoronava atrás dele. Em xadrez, é o jogador que deixa o relógio correr numa posição que só piora.

FIG. 05Prisioneiros alemães levados para a retaguarda do 5º Exército em Campidello, Itália, em 15 de abril de 1945, duas semanas antes de Fornovo. Não são prisioneiros da FEB: a foto mostra a mesma ofensiva final, em outro setor.U.S. Army Signal Corps (SC 205360) · Domínio público

Lance 513h de 28 de abril: o ataque que prova o cerco

O ultimato venceu sem resposta, e às 13h o comandante brasileiro manda atacar. É a única coisa que mantinha o ultimato de pé: um cerco só funciona se quem está dentro acredita nele, e um prazo que vence sem consequência transforma o cerco em blefe.

O ataque não tinha como objetivo tomar Fornovo. Tinha como objetivo mostrar que a saída estava fechada de verdade. O combate daquele dia é descrito pelas fontes como ferrenho, e brasileiros morreram nele.

A partir dali a conta do lado alemão muda de natureza. Já não se trata de como escapar, e sim de quanto custa continuar tentando.

Vale olhar a sequência inteira, porque é ela que responde a quem diz que não houve batalha: proposta às 15h do dia 27, pedido de condições às 20h30, ultimato às 9h do dia 28, resposta evasiva antes do meio-dia, ataque às 13h. Nove horas depois do ataque, o mesmo major que pedia instruções volta pedindo para negociar. O que mudou entre uma visita e outra foi o ataque.

FIG. 06O general Mascarenhas de Moraes, comandante da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, em Montese. Ele estava presente na reunião de 29 de abril que abriu a rendição da 148ª.autor desconhecido · Domínio público

Lance 6Da madrugada ao dia 30: a rendição

Às 22h do mesmo dia 28, o major Kuhn reaparece, agora para negociar a rendição. A negociação atravessa a madrugada, da meia-noite às 5h30 de 29 de abril. Ao meio-dia há nova reunião, com o general Mascarenhas de Moraes presente, e por volta das 13h começa a rendição, com ambulâncias retirando os feridos alemães.

A rendição é incondicional. A coleta dos prisioneiros leva mais de um dia e só termina às 18h de 30 de abril, quando Fretter-Pico se apresenta com 31 oficiais do seu estado-maior.

A contagem final registra 14.779 prisioneiros, 4.000 cavalos e 80 canhões, além de muita munição e centenas de veículos de tração animal. Não é uma unidade que se desfaz aos pedaços: é uma divisão entregue de uma vez, com o comando junto.

O tamanho do feito está no escopo, e ele precisa ser dito com precisão. Da invasão da Sicília, em julho de 1943, à ofensiva da primavera de 1945, a 148ª é a única divisão alemã capturada inteira, com o comando junto, por uma força aliada na Campanha da Itália. Na guerra como um todo, o superlativo não se sustenta; no teatro italiano, sim.

VereditoPor que deu no que deu

Deu certo porque a FEB jogou a casa, não a peça. Da invasão da Sicília, em julho de 1943, até a ofensiva da primavera de 1945, divisões alemãs foram duramente batidas na Itália, mas todas conseguiram recuar para o norte sem se render. Em Fornovo a diferença não foi o dano causado; foi que os brasileiros ocuparam a casa da fuga antes de a coluna chegar a ela.

O erro do outro lado foi de leitura do tempo. Fretter-Pico entendeu a posição na noite de 27, quando pediu as condições, e ainda assim tratou o prazo como recurso. Às 22h do dia 28, quando Kuhn voltou para negociar, a posição era pior do que às 9h da manhã, porque no meio havia um ataque que provava que a porta estava fechada.

É a diferença entre machucar uma peça e capturá-la. Não houve xeque-mate por assalto: houve a posição em que o adversário deixa de ter lance, olha o tabuleiro e deita o rei.

MitosO que se conta e o que o registro mostra

  • O que se conta

    Não houve batalha em Fornovo: os alemães já estavam acabados e se entregaram sozinhos, num simples encontro de tropas.

    O que o registro mostra

    A versão vem dos derrotados. Lotar Mull, ex-oficial alemão, declarou que não houve batalha de Fornovo, só um encontro de tropas, e a filha de Fretter-Pico contou que o pai chamava o episódio de "aquilo" e achava graça na comemoração brasileira (relatos reunidos pelo Jornalismo de Guerra). O registro mostra quatro dias de operação, choque de tropas em Collecchio em 26 de abril, um ultimato ignorado, um ataque ordenado às 13h de 28 de abril, mortos brasileiros e uma rendição incondicional de 14.779 homens. Uma divisão acabada demais para lutar não precisa de prazo, de padre emissário nem de uma madrugada de negociação.

  • O que se conta

    Cerca de 20 mil alemães se renderam à FEB em Fornovo.

    O que o registro mostra

    São três números diferentes medindo três coisas diferentes. A contagem formal da rendição em Collecchio–Fornovo é 14.779. O "cerca de 20 mil" que aparece em parte da imprensa descreve os homens encaminhados às áreas de concentração de Ponte Scodogna. E os 20.573 citados em algumas matérias são o total de prisioneiros feitos pela FEB na campanha inteira, não em Fornovo.

  • O que se conta

    Foi a única divisão alemã capturada inteira em toda a Segunda Guerra.

    O que o registro mostra

    O superlativo tem escopo, e o escopo é a Campanha da Itália: a 148ª foi a única divisão alemã capturada inteira, com o comando junto, por uma força aliada naquele teatro, da Sicília em 1943 à ofensiva final de 1945. Estendê-lo à guerra inteira é afirmar o que as fontes não dizem.

PerguntasPerguntas frequentes

O que aconteceu em Fornovo di Taro na Segunda Guerra?

Entre 26 e 29 de abril de 1945, a FEB ocupou a saída do vale do Taro e encurralou a coluna da 148ª Divisão de Infantaria alemã. Depois de um ultimato, um ataque e uma madrugada de negociação, a divisão se rendeu incondicionalmente, com o general e o estado-maior.

Quantos alemães se renderam à FEB em Fornovo di Taro?

A contagem formal da rendição registra 14.779 prisioneiros, além de 4.000 cavalos e 80 canhões. O número de cerca de 20 mil que circula descreve os homens levados às áreas de concentração de Ponte Scodogna, e os 20.573 são o total de prisioneiros da FEB na campanha inteira.

Quando foi a rendição de Fornovo di Taro?

A rendição começou por volta das 13h de 29 de abril de 1945, depois de uma negociação que foi da meia-noite às 5h30. A coleta dos prisioneiros só terminou às 18h de 30 de abril, quando Fretter-Pico se apresentou com 31 oficiais do estado-maior.

Quem comandou a FEB em Fornovo di Taro?

A divisão era do general Mascarenhas de Moraes; o coronel Nelson de Melo, do 6º Regimento de Infantaria, deu o ultimato e ordenou o ataque. Do lado alemão, a 148ª Divisão era do Generalleutnant Otto Fretter-Pico, e quem negociou foi o major W. Kuhn.

Houve mesmo batalha em Fornovo di Taro?

Sim. A versão de que não houve batalha vem dos derrotados; o registro mostra choque de tropas em Collecchio em 26 de abril, um ultimato ignorado, um ataque às 13h de 28 de abril e mortos brasileiros antes da rendição.

Episódio 03 · estreia 8 de outubro de 2026

Por que a FEB capturou uma divisão alemã inteira em Fornovo

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FontesFontes

  1. Departamento-Geral do Pessoal do Exército Brasileiro, "29 de abril — Conquista de Fornovo e rendição da 148ª Divisão de Infantaria Alemã"
  2. Blog do Exército Brasileiro, "80 anos da rendição da 148ª Divisão de Infantaria Alemã"
  3. Blog do Exército Brasileiro, "Vitória da FEB em Fornovo — 28 Abr 1945"
  4. Forças Terrestres, "Há 73 anos, a 148ª Divisão de Infantaria Alemã se rendia à FEB"
  5. DefesaNet, "Rendição da 148ª Divisão de Infantaria alemã à FEB"
  6. Jornalismo de Guerra, "FEB: em Fornovo, rendição era incondicional, mas vencidos fizeram pouco caso anos depois"
  7. Wikipédia em português, "Batalha de Fornovo di Taro" — pt.wikipedia.org
  8. Wikipedia em inglês, "Battle of Collecchio" — en.wikipedia.org

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