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Xadrez Bélico
Três soldados brasileiros de capacete e capote, dois deles dentro de uma trincheira, conversam com um correspondente americano que anota num bloco Correspondente de guerra americano entrevista infantes brasileiros na linha de frente na Itália, dezembro de 1944. — U.S. Army Signal Corps · Domínio público
Episódio 01 · A FEB na Itália

Monte Castello

24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945 · Monte Castello, Apeninos, Emília-Romanha, Itália

Por que os ataques de novembro e dezembro de 1944 falharam, e o de fevereiro de 1945 não?

Por quase três meses, entre novembro de 1944 e fevereiro de 1945, a Força Expedicionária Brasileira atacou o mesmo morro nos Apeninos, no norte da Itália, e foi repelida. Em 21 de fevereiro subiu outra vez e tomou o cume no mesmo dia. O morro não tinha mudado, e a divisão alemã que o defendia também não.

O que mudou foi o tabuleiro em volta. Monte Castello era o último elo de uma corrente de alturas, e enquanto os picos vizinhos ficaram em mãos alemãs, quem subia a encosta levava fogo de frente e de lado. A vitória de fevereiro começou nas montanhas ao lado.

FichaFicha da batalha

Lado aliado1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (FEB), dentro do 5º Exército americano; Força-Tarefa 45 americana em novembro; 10ª Divisão de Montanha americana na Operação Encore, em fevereiro2+ fontes
Lado alemão232ª Divisão de Infantaria, com os regimentos 1.043, 1.044 e 1.0452+ fontes
Comandante alemãoTenente-general Eccard Freiherr von Gablenz, 232ª Divisão de Infantaria2+ fontes
Comandante brasileiroJ. B. Mascarenhas de Moraes, comandante da FEBautor do relato A FEB pelo seu comandante1 fonte
Unidades em novembroEsquadrão de Reconhecimento e 3º Batalhão do 6º Regimento de Infantaria da 1ª DIE, com a Força-Tarefa 45, nos ataques de 24 e 25 de novembro2+ fontes
Unidades em 21 de fevereiroBatalhões Uzeda, Franklin e Siseno Sarmento (também grafado Sizeno); o Franklin alcançou o cume2+ fontes
TerrenoCorrente de alturas nos Apeninos: Riva Ridge, Monte Belvedere, Gorgolesco, Della Torraccia e, por último, Monte Castello; cada uma cobre a seguinte2+ fontes
ObjetivoMonte Castello, que dominava um dos vales que levavam a Bologna e ao vale do Pó2+ fontes
Ataques fracassados24, 25 e 29 de novembro e 12 de dezembro de 19442+ fontes
Número de ataquesSeis, na conta da Wikipédia em português; quatro tentativas anteriores à conquista, na do Blog do Exército Brasileiroa diferença vem de contar 24 e 25 de novembro como um ataque ou dois, e de incluir ou não ações menoresdiverge
DuraçãoQuase três meses, de 24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945; o ataque final durou um dia2+ fontes
Preparação aliadaA 10ª Divisão de Montanha treinou em Camp Hale, Colorado, de novembro de 1942 a junho de 1944segundo o Arquivo Nacional dos Estados Unidos1 fonte
ResultadoCume tomado pelo Batalhão Franklin às 17h30 de 21 de fevereiro de 19452+ fontes
O depoisA FEB segue como tropa veterana; em abril de 1945 vem Montese2+ fontes
2+ fontes Confirmado em duas ou mais fontes independentes.1 fonte Uma fonte só; o texto diz qual.diverge As fontes discordam; mostramos as versões e não escolhemos.sem registro Ninguém registrou. Dizemos isso em vez de inventar.

Lance 1A posição: uma peça que não está sozinha

A Força Expedicionária Brasileira chegou à Itália em 1944 e entrou na linha dentro do 5º Exército americano, diante da Linha Gótica, a faixa de fortificações que os alemães tinham construído sobre os Apeninos. O alvo aliado era Bologna, a porta do vale do Pó. Monte Castello dominava um dos vales que levavam até lá: quem estava no alto via cada caminhão e cada patrulha que se movia embaixo.

Visto de longe, parecia um alvo isolado. Não era. Monte Castello é o último elo de uma corrente de alturas — Riva Ridge, Monte Belvedere, Gorgolesco, Della Torraccia e, por fim, Castello. Juntas, elas formam uma muralha, e cada uma cobre a seguinte. Quem sobe Castello de frente leva fogo direto de cima e, ao mesmo tempo, fogo dos picos ao lado, que não está atacando.

No xadrez, é a torre que parece desprotegida até o lance seguinte, quando se descobre o bispo do outro lado do tabuleiro defendendo a casa.

FIG. 02Tropa da FEB em marcha; a anotação à mão no original identifica Monte Castelo ao fundo.Força Expedicionária Brasileira · Domínio público

Lance 2As peças: o pracinha e a defesa em sistema

O soldado brasileiro lutava com equipamento americano: o fuzil semiautomático Garand, o fuzil-metralhador Browning no grupo de combate, morteiros e a artilharia divisionária brasileira atrás. No ombro, o distintivo da cobra fumando, nascido de uma frase de deboche que corria pelo país antes de a tropa embarcar.

Do outro lado estava a 232ª Divisão de Infantaria alemã, do tenente-general Eccard Freiherr von Gablenz. A defesa não era um punhado de soldados no topo, era um arranjo: postos de observação no alto, que mais enxergavam do que atiravam e passavam coordenadas para morteiros e artilharia; casamatas nas encostas com as metralhadoras apontadas de lado, cada uma cobrindo o caminho da outra; minas e arame nas rotas óbvias de subida, para segurar o atacante parado em terreno aberto.

A metralhadora era a MG 42, com cadência média por volta de 1.200 tiros por minuto. Os pracinhas a chamavam de lurdinha. Mas a peça mais forte do setor não era a arma, era o desenho: uma defesa com pouca gente que se sustentava porque cada ponto forte protegia o flanco do vizinho. O preço desse desenho também estava à vista — derrubado um ponto, os outros ficam expostos.

FIG. 03Carta com o dispositivo de defesa do inimigo nº 6, do IV Corpo americano, de 19 de fevereiro de 1945: posições alemãs levantadas por fotografia aérea até 15 de fevereiro, com legenda em inglês e português.U.S. Army, IV Corps (G-2) · Domínio público

Lance 3Novembro: atacar a peça com o flanco aberto

Em 24 e 25 de novembro de 1944, tropas brasileiras — o Esquadrão de Reconhecimento e o 3º Batalhão do 6º Regimento de Infantaria — atacam Monte Castello junto com a Força-Tarefa 45 americana. Os ataques são repelidos.

Na noite de 28 de novembro, os alemães contra-atacam e retomam o Monte Belvedere, o pico ao lado. No dia seguinte, 29, a FEB ataca Castello de novo, agora com o flanco exposto exatamente à altura que acabara de ser perdida. O fogo vem de cima, como esperado, e de lado, de onde não devia vir. Não há abrigo na encosta contra os dois ao mesmo tempo. O ataque para.

É o lance que define a campanha: tentar capturar uma peça cuja defesa acabou de ser reforçada no lance anterior do adversário.

FIG. 04Soldados da 10ª Divisão de Montanha americana com equipamento de esqui, 1943, no período de treinamento.U.S. Army · Domínio público

Lance 4Dezembro: a mesma jogada, com o tempo contra

Em 12 de dezembro de 1944 vem nova tentativa, sob chuva, com a lama tomando a encosta e o tempo fechado prejudicando observação e apoio de fogo. A FEB recua outra vez.

Depois disso, o inverno dos Apeninos fecha a frente: neve, neblina, lama e temperatura abaixo de zero por semanas, para homens que em grande parte viam neve pela primeira vez. Monte Castello continua alemão.

FIG. 05A aldeia de Corona, logo abaixo da crista do Monte Belvedere, tomada pela 10ª Divisão de Montanha em fevereiro de 1945.U.S. Army Signal Corps · Domínio público

Lance 5O diagnóstico: o alvo estava errado

Todos esses ataques tentavam tomar uma peça enquanto as que a protegiam continuavam no tabuleiro. Subiam o morro deixando de pé justamente o que tornava o morro difícil. Era ataque ao sintoma, não ao sistema — e com força pequena, pouco tempo de preparação e, em 29 de novembro, um flanco descoberto.

Não foi questão de coragem nem de qualidade de tropa: a Força-Tarefa 45 americana também foi repelida no mesmo morro, nos mesmos dias.

O defensor tinha lido o tabuleiro melhor. A retomada do Belvedere na véspera do ataque de 29 de novembro mostra que os alemães sabiam onde estava a força da posição: nos picos vizinhos, que mantinham o fogo cruzado sobre a encosta de Castello. Enquanto o atacante olhasse só para o cume, cada assalto seria uma subida por um corredor batido de dois lados.

FIG. 06Infantes brasileiros leem a correspondência nas trincheiras da frente italiana.U.S. Army Signal Corps · Domínio público

Lance 6Fevereiro: a Operação Encore desmonta a corrente

A correção chega em fevereiro de 1945, com a Operação Encore. A ofensiva já não mira um morro, mira a corrente inteira, e na ordem certa. Entra a 10ª Divisão de Montanha americana, treinada em Camp Hale, no Colorado, entre novembro de 1942 e junho de 1944, em esqui, escalada em rocha e gelo e sobrevivência em altitude.

Na noite de 18 para 19 de fevereiro, os homens da 10ª escalam no escuro os paredões do Riva Ridge, uma face que os alemães consideravam íngreme demais para ser subida — e por isso guardavam mal. Tomam a crista de surpresa. Depois cai o Monte Belvedere, depois o Gorgolesco.

Pela primeira vez em quase três meses, Monte Castello está sozinho no tabuleiro.

Lance 721 de fevereiro: o xeque

Em 21 de fevereiro de 1945, depois da preparação de artilharia, os batalhões Uzeda, Franklin e Siseno Sarmento sobem Monte Castello. O fogo de flanco que tinha desmontado os ataques anteriores não existe mais: as posições que atiravam de lado agora estão ocupadas por tropa aliada.

Ainda assim não é rápido. São horas de combate encosta acima, casamata por casamata, com a defesa resistindo o dia inteiro. Às 17h30, o Batalhão Franklin alcança o cume. Monte Castello é da FEB.

O que a conquista entregou vai além do morro. A FEB sai de fevereiro com experiência real de combate em montanha, e nas semanas seguintes avança como tropa veterana — a mesma que, em abril de 1945, enfrentaria Montese.

VereditoPor que deu no que deu

Em montanha, uma altura não é um alvo, é uma peça de um sistema. Os ataques de novembro e dezembro perderam homens por um problema de planejamento, não de tropa: subiam a peça sem tocar nas que a defendiam, e em 29 de novembro subiram logo depois de o adversário ter recuperado o Belvedere.

O ataque de fevereiro venceu porque a ordem dos lances mudou. Primeiro a 10ª Divisão de Montanha desmontou a proteção — Riva Ridge, Belvedere, Gorgolesco — e só depois a FEB subiu o morro. A mesma tropa, contra a mesma divisão, no mesmo morro, tomou o cume num dia. A montanha derrotava quem a atacasse errado, e derrotou brasileiros e americanos do mesmo jeito.

MitosO que se conta e o que o registro mostra

  • O que se conta

    A FEB tomou Monte Castello sozinha, num feito isolado de coragem.

    O que o registro mostra

    Foi operação combinada. A conquista de 21 de fevereiro de 1945 dependeu do que a 10ª Divisão de Montanha americana fez antes nos picos vizinhos, a partir da noite de 18 para 19 de fevereiro.

  • O que se conta

    Os brasileiros falharam em 1944 por serem tropa inferior.

    O que o registro mostra

    A Força-Tarefa 45 americana também foi repelida em Monte Castello, nos ataques de 24 e 25 de novembro de 1944. O que derrotava os atacantes era o fogo cruzado das alturas vizinhas, não a nacionalidade da tropa.

  • O que se conta

    Foram exatamente seis ataques — ou exatamente quatro.

    O que o registro mostra

    As fontes divergem: a Wikipédia em português fala em seis, o Blog do Exército em quatro tentativas anteriores à conquista. A diferença depende de contar 24 e 25 de novembro como um ataque ou dois e de incluir ações menores. As datas firmes são 24, 25 e 29 de novembro e 12 de dezembro de 1944.

  • O que se conta

    A MG 42 ganhou o apelido de lurdinha porque o ritmo lembrava a fala da noiva ciumenta de um soldado.

    O que o registro mostra

    O apelido lurdinha, dado pelos pracinhas, é atestado. A explicação da noiva é folclore sem fonte firme.

PerguntasPerguntas frequentes

Quem venceu a Batalha de Monte Castelo?

A Força Expedicionária Brasileira: às 17h30 de 21 de fevereiro de 1945, o Batalhão Franklin alcançou o cume. A conquista dependeu da 10ª Divisão de Montanha americana, que antes tomou os picos vizinhos na Operação Encore.

Quando foi a Batalha de Monte Castelo?

De 24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945, quase três meses. Os ataques de 24, 25 e 29 de novembro e de 12 de dezembro de 1944 foram repelidos; o ataque final durou um dia.

Por que a FEB falhou nos primeiros ataques a Monte Castelo?

Porque os picos vizinhos continuavam alemães, e quem subia a encosta levava fogo de frente e de lado. Em 29 de novembro, a FEB atacou logo depois de os alemães retomarem o Monte Belvedere. A Força-Tarefa 45 americana também foi repelida no mesmo morro.

Quantos ataques a FEB fez a Monte Castelo?

As fontes divergem: a Wikipédia em português fala em seis; o Blog do Exército Brasileiro, em quatro tentativas anteriores à conquista. A diferença depende de contar 24 e 25 de novembro como um ataque ou dois e de incluir ações menores.

Quem comandou a Batalha de Monte Castelo?

O comandante da FEB era Mascarenhas de Moraes. Do outro lado, o setor era defendido pela 232ª Divisão de Infantaria alemã, do tenente-general Eccard Freiherr von Gablenz.

Episódio 01

Por que a FEB falhou em Monte Castello (e como finalmente venceu)

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MaisLeia também

FontesFontes

  1. Batalha de Monte Castello, Wikipédia em português — pt.wikipedia.org
  2. A Tomada de Monte Castello pela Força Expedicionária Brasileira, Blog do Exército Brasileiro — eblog.eb.mil.br
  3. Battle of Monte Castello, Wikipédia em inglês — en.wikipedia.org
  4. MG 42, Wikipédia em inglês — en.wikipedia.org
  5. Climb to Glory: The 10th Mountain Division's Ski and Mountain Troops, National WWII Museum — nationalww2museum.org
  6. Camp Hale, Colorado: Training the 10th Mountain Division During World War II, The Unwritten Record, National Archives — unwritten-record.blogs.archives.gov
  7. Pracinhas: qual a origem da expressão 'a cobra vai fumar', Aventuras na História — aventurasnahistoria.com.br
  8. Mascarenhas de Moraes, J. B. A FEB pelo seu comandante
  9. Maximiano, C. C. Barbudos, Sujos e Fatigados
  10. História oficial do Exército dos Estados Unidos sobre a campanha dos Apeninos do Norte

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