Pular para o conteúdo
Xadrez Bélico
Carro blindado de reconhecimento parado numa rua de Montese, entre casas marcadas por estilhaços e entulho de pedra, com soldados à direita Força Expedicionária Brasileira em Montese: um carro de reconhecimento numa rua de casas crivadas de estilhaços. — Força Expedicionária Brasileira · Domínio público
Episódio 02 · A FEB na Itália

Montese

14 a 17 de abril de 1945 · Montese, Módena, Emília-Romanha, Itália

Por que Montese caiu em 2h15 e, ainda assim, custou 426 baixas brasileiras?

Em 14 de abril de 1945, a Força Expedicionária Brasileira atacou Montese, uma cidade de casario de pedra no alto de um morro dos Apeninos, na província de Módena, Itália. Começou às 13h30. Às 15h45 a cidade estava ocupada: 2 horas e 15 minutos.

Mesmo assim, os quatro dias de Montese terminaram com 426 baixas brasileiras. A tomada foi rápida; o que custou caro foi ficar. E a explicação mais provável não está no plano brasileiro, mas na forma como o comando alemão leu o lance.

FichaFicha da batalha

Data14 a 17 de abril de 1945; ataque às 13h30 do dia 142+ fontes
ContextoOfensiva aliada da primavera de 1945 na Itália. No setor do IV Corpo americano, o ataque principal cabia à 10ª Divisão de Montanha; a FEB tinha uma missão no flancoSegundo a Wikipédia em inglês1 fonte
TerrenoCidade no alto de um morro, com casas de pedra, ruas estreitas, porões e campanário; elevações em volta2+ fontes
ObjetivoO triângulo Montese – cota 888 – Montello2+ fontes
Força brasileira11º Regimento de Infantaria, com três batalhões, no ataque a Montese; o 1º Regimento de Infantaria atacou no mesmo combateO 1º RI aparece no mapa de época assinado por Autran (1946) e no Blog do Exército Brasileiro; a Wikipédia em português citava o 6º RI2+ fontes
BlindadosA infantaria avançou com carros de reconhecimento M8 e tanques ShermanSegundo a Wikipédia em inglês1 fonte
Força alemã114ª Divisão Ligeira (Jägerdivision), tropa voltada a terreno acidentado e combate em área urbana2+ fontes
EfetivosSem número conferido para nenhum dos ladossem registro
DuraçãoCidade ocupada às 15h45 de 14 de abril; contra-ataques até 16 de abril; limpeza de resistência em Montebuffone no dia 172+ fontes
Artilharia alemãCerca de 1.800 projéteis sobre a divisão brasileira, de 2.800 disparados contra quatro divisões (64%), pela Wikipédia em português; mais de 3.200 projéteis consumidos na batalha, pelo Blog do Exército Brasileiro. Os dois números não fecham entre sidiverge
Baixas brasileiras426 entre mortos, feridos, prisioneiros e desaparecidos; 34 mortos, segundo a Wikipédia em português2+ fontes
Baixas alemãs e prisioneirosSem número conferidosem registro
AntesEm 12 de abril, o sargento Max Wolff Filho, 33 anos e mais de 30 patrulhas, morreu por rajada de metralhadora comandando 19 voluntários entre Monteforte e Riva di Biscia2+ fontes
ResultadoMontese tomada no primeiro dia e mantida contra os contra-ataques2+ fontes
O depoisEm 29 de abril de 1945, em Fornovo di Taro, a 148ª Divisão de Infantaria alemã se rendeu à FEB: 14.779 homens2+ fontes
2+ fontes Confirmado em duas ou mais fontes independentes.1 fonte Uma fonte só; o texto diz qual.diverge As fontes discordam; mostramos as versões e não escolhemos.sem registro Ninguém registrou. Dizemos isso em vez de inventar.

Lance 1A posição no tabuleiro: uma peça de flanco

Em abril de 1945 os aliados montaram a ofensiva final na Itália, com o objetivo de romper a frente alemã nos Apeninos e abrir caminho para o vale do Pó. No setor do IV Corpo americano, onde estava a Força Expedicionária Brasileira, o ataque principal cabia à 10ª Divisão de Montanha, segundo a Wikipédia em inglês.

À FEB coube Montese, no flanco. Na linguagem do tabuleiro, era uma peça de apoio: o lance que importava estava em outro eixo, e o papel brasileiro era pressionar ao lado dele. Essa posição secundária é o que explica tudo o que vem depois.

O terreno também mudou de natureza. Monte Castello era encosta aberta: subia-se debaixo de fogo, mas via-se de onde o fogo vinha. Montese é uma cidade no alto de um morro, com casa de pedra, rua estreita, janela, porão e campanário. O tabuleiro deixa de ser uma rampa e passa a ser uma grade de casas, cada uma capaz de esconder uma peça.

Há também uma diferença que não aparece no mapa. A tropa que ataca em abril passou um inverno inteiro na linha dos Apeninos depois das primeiras tentativas contra Monte Castello. São os mesmos homens, mas não é mais uma tropa estreante.

FIG. 02"Combate de Montese, 14-IV-945", desenho assinado por Autran em 1946. As setas grossas são as direções de ataque do 11º R.I.; as finas, do 1º R.I.Força Expedicionária Brasileira (desenho assinado Autran, 1946) · Domínio público

Lance 2O lance preparatório: a patrulha de 12 de abril

Antes de um ataque, alguém precisa ir ver o terreno. Em 12 de abril de 1945, o sargento Max Wolff Filho, de 33 anos, que já havia feito mais de 30 patrulhas, saiu à frente de 19 voluntários para reconhecer a área entre Monteforte e Riva di Biscia, na terra de ninguém diante das linhas brasileiras.

Foi atingido por uma rajada de metralhadora e não voltou. Patrulha de reconhecimento não serve para combater, serve para trazer de volta onde o inimigo está, quantos são e por onde não se passa. Dois dias depois, a divisão atacou aquele mesmo chão.

No tabuleiro, esse é o lance que não aparece no placar. A cidade que caiu numa tarde caiu sobre um terreno que patrulhas como a dele vinham mapeando no escuro, um trecho por vez, durante semanas de linha estática.

FIG. 03Soldados brasileiros em posição em Montese, com casas de pedra à frente.Força Expedicionária Brasileira · Domínio público

Lance 3A abertura: 2 horas e 15 minutos

Às 13h30 de 14 de abril, o 11º Regimento de Infantaria atacou o triângulo formado por Montese, a cota 888 e Montello, com três batalhões. O 1º Regimento de Infantaria atacou no mesmo combate: as duas direções de ataque aparecem na legenda do mapa desenhado por Autran em 1946.

A infantaria não foi sozinha. Segundo a Wikipédia em inglês, o avanço contou com carros de reconhecimento M8 e tanques Sherman, o que dava ao ataque brasileiro um peso visível de blindados num setor de flanco.

Às 15h45, Montese estava ocupada. Foram 2 horas e 15 minutos contra uma cidade defendida, num terreno de casas de pedra em que cada janela é uma posição de tiro. É aqui que a maior parte das versões encerra a história.

FIG. 04Viaturas da FEB numa rua de Montese; ao fundo, a torre danificada.Força Expedicionária Brasileira · Domínio público

Lance 4O meio-jogo: tomar não é segurar

Combate em cidade tem uma regra que a encosta aberta não tem: ocupar o terreno não é o mesmo que estar seguro nele. Numa encosta, uma metralhadora cobre um setor; numa rua, cada porta e cada porão abrem um ângulo novo, e o prédio que ficou para trás pode ainda ter alguém dentro.

Do outro lado estava a 114ª Divisão Ligeira alemã, a Jägerdivision, tropa voltada a terreno acidentado e a combate em área urbana. Os alemães não aceitaram a perda: contra-atacaram e, sobretudo, passaram a bombardear a cidade que os brasileiros acabavam de ocupar.

É nesse ponto que a vantagem do atacante se inverte. Enquanto avança, a tropa escolhe onde e quando se expõe. Depois de ocupar, ela fica parada dentro de um alvo que o adversário conhece, porque até poucas horas antes era dele.

Os contra-ataques só cessaram em 16 de abril. No dia 17, a tropa ainda limpava resistência em Montebuffone. A cidade caiu numa tarde; mantê-la levou o resto dos quatro dias.

FIG. 05A igreja de Castelluccio di Montese depois dos bombardeios.Força Expedicionária Brasileira · Domínio público

Lance 5A leitura do adversário: o flanco tomado pelo centro

O volume de fogo é o dado que mais pesa, e também o que as fontes registram de forma menos coerente. A Wikipédia em português fala em cerca de 1.800 projéteis sobre a divisão brasileira, de um total de 2.800 disparados contra as quatro divisões aliadas do setor, o que dá 64%. O Blog do Exército Brasileiro fala em mais de 3.200 projéteis consumidos na batalha. Os números não fecham entre si; o que as duas versões têm em comum é a concentração do fogo sobre a FEB, por volta de dois terços.

Por que uma divisão de flanco atraiu a maior parte da artilharia? A Wikipédia em inglês registra que o avanço brasileiro com blindados levou o comando alemão a considerar Montese um possível objetivo real dos aliados naquele setor. É interpretação, não documento, mas encaixa com o resto: no primeiro dia, o ataque principal da 10ª de Montanha foi contido, enquanto no flanco uma força entrava numa cidade defendida, com tanques, e não parava.

Visto da posição alemã, o lance secundário parecia o principal. E o adversário respondeu ao que viu, concentrando o fogo ali. A velocidade brasileira, que era a virtude do ataque, virou o sinal que atraiu a artilharia.

FIG. 06A carta da área de Montese: Army Map Service, Itália 1:50.000, folha 97-I "Fanano", 2ª edição, maio de 1944.U.S. Army Map Service · Domínio público

Lance 6A conta

Entre 14 e 17 de abril, a FEB teve 426 baixas, entre mortos, feridos, prisioneiros e desaparecidos. A Wikipédia em português detalha 34 mortos dentro desse total.

A comparação com a abertura do ataque é a lição inteira do episódio. As 2h15 mediram a qualidade do lance brasileiro; os quatro dias mediram a resposta do adversário. Os dois números descrevem coisas diferentes, e somá-los numa frase só, como se as baixas tivessem caído durante a tomada, é o tipo de compressão que apaga o que de fato aconteceu.

O objetivo foi cumprido no primeiro dia e a cidade foi mantida. O preço não veio de um erro de planejamento brasileiro, e sim de estar exatamente no ponto que o adversário escolheu como o mais perigoso. Duas semanas depois, a mesma tropa cercaria uma divisão alemã inteira em Fornovo di Taro.

VereditoPor que deu no que deu

Montese é o avesso de Monte Castello. Lá, os aliados atacaram uma peça sem olhar a corrente inteira de posições, e pagaram por um erro de leitura próprio. Aqui, a FEB jogou a peça certa, no tempo certo, e cumpriu o objetivo em 2h15.

O sangue veio da outra metade do tabuleiro. Tudo indica que o comando alemão leu o ataque de flanco, rápido e com blindados, como o eixo principal da ofensiva, e despejou sobre ele a maior parte da artilharia do setor. A fatura de uma leitura errada não chega para quem errou; chega para quem está no ponto lido.

MitosO que se conta e o que o registro mostra

  • O que se conta

    Montese foi uma vitória rápida e limpa: a cidade caiu em duas horas.

    O que o registro mostra

    A cidade foi ocupada em 2 horas e 15 minutos, das 13h30 às 15h45 de 14 de abril. Mas os contra-ataques seguiram até 16 de abril, a limpeza até o dia 17, e a FEB somou 426 baixas nesses quatro dias.

  • O que se conta

    Tantas baixas mostram que a tropa brasileira estava despreparada.

    O que o registro mostra

    A tropa cumpriu o objetivo no primeiro dia, contra a 114ª Divisão Ligeira, voltada a combate em terreno acidentado e área urbana, e sob o fogo de artilharia mais concentrado do setor. As baixas vieram de segurar a cidade sob esse fogo, não de falhar em tomá-la.

  • O que se conta

    A FEB foi a única divisão aliada a atingir o objetivo planejado no primeiro dia da ofensiva.

    O que o registro mostra

    A afirmação aparece em uma única fonte, a Wikipédia em português, sem confirmação independente. O que se sustenta é mais modesto: o ataque principal da 10ª Divisão de Montanha foi contido no primeiro dia, e a FEB cumpriu o seu objetivo.

PerguntasPerguntas frequentes

Quem venceu a Batalha de Montese?

A Força Expedicionária Brasileira. A cidade foi ocupada às 15h45 de 14 de abril de 1945 e mantida contra os contra-ataques da 114ª Divisão Ligeira alemã, que seguiram até 16 de abril.

Quantos brasileiros morreram na Batalha de Montese?

A FEB teve 426 baixas entre 14 e 17 de abril de 1945, somando mortos, feridos, prisioneiros e desaparecidos. Dentro desse total, a Wikipédia em português detalha 34 mortos.

Quanto tempo durou a Batalha de Montese?

Quatro dias, de 14 a 17 de abril de 1945. A cidade caiu em 2 horas e 15 minutos, das 13h30 às 15h45 do dia 14; os contra-ataques foram até 16 de abril, e a limpeza em Montebuffone terminou no dia 17.

Por que a Batalha de Montese teve tantas baixas brasileiras?

As baixas vieram de segurar a cidade, não de tomá-la. Tudo indica que o comando alemão leu o ataque de flanco, rápido e com blindados, como o eixo principal da ofensiva, e concentrou sobre a FEB por volta de dois terços da artilharia do setor.

Episódio 02 · estreia 1 de outubro de 2026

Por que a FEB venceu em Montese (e pagou o preço mais alto)

Ver no YouTube

MaisLeia também

FontesFontes

  1. Batalha de Montese — Wikipédia em português — pt.wikipedia.org
  2. Battle of Montese — Wikipédia em inglês — en.wikipedia.org
  3. Spring 1945 offensive in Italy — Wikipédia em inglês — en.wikipedia.org
  4. O dever cívico-militar de exaltar a Batalha de Montese — Blog do Exército Brasileiro
  5. Max Wolff Filho — Wikipédia em português; e Revista Sociedade Militar, sobre o "rei das patrulhas" — pt.wikipedia.org
  6. Mapa "Combate de Montese", assinado Autran, 1946 (Wikimedia Commons) — commons.wikimedia.org
  7. 29 de abril — Conquista de Fornovo e rendição da 148ª Divisão de Infantaria Alemã — Departamento-Geral do Pessoal do Exército

Imagens