Em 1º de setembro de 1939, uma divisão de infantaria alemã tinha 3.859 cavalos. A divisão polonesa que ela ia enfrentar tinha cerca de 2.000. O exército que o mundo passaria a associar à guerra-relâmpago tinha quase o dobro de cavalos por divisão que o exército que derrotou.
A campanha durou 35 dias e terminou numa vitória alemã completa. A pergunta desta página não é se ela foi rápida — foi. É outra: o método estava escrito antes do primeiro lance, ou foi lido no resultado e só então ganhou nome?
FichaFicha da batalha
| Forças — Alemanha | 66 divisões e 6 brigadas, segundo a contagem mais citada; o estudo do Exército dos EUA de 1942 fala em 60 a 70 divisões e cerca de 1.250.000 homensAs duas contagens não medem a mesma coisa; a faixa é o que as duas sustentam juntas. | diverge |
|---|---|---|
| Divisões blindadas alemãs | 9 — cinco pesadas e quatro ligeirasEstudo do Exército dos EUA, 1942. | 1 fonte |
| Tanques — Alemanha | 2.750 empregados na operação, segundo a Wikipédia em inglês; o estudo americano de 1942 diz que a Alemanha tinha produzido 6.000, três quartos deles em divisões panzerUm número é o que entrou na campanha; o outro, o inventário. | diverge |
| Forças — Polônia | 39 divisões, 16 brigadas, 4.300 canhões, 210 tanques e 670 tanquetas, 800 aviões | 2+ fontes |
| Forças — URSS | 33 divisões ou mais, 11 brigadas ou mais, 4.736 tanques, 3.300 aviões | 2+ fontes |
| Divisão de infantaria, lado a lado | alemã: 3.859 cavalos e 1.067 veículos a motor; polonesa: cerca de 2.000 cavalos e cerca de 5 carros de estado-maiorTabela comparativa do estudo do Exército dos EUA, 1942. O número é por divisão de infantaria, não o total do exército. | 1 fonte |
| Comandantes no Bzura | Polônia: Tadeusz Kutrzeba (Exército Poznań) e Władysław Bortnowski (Exército Pomorze). Alemanha: Gerd von Rundstedt, Johannes Blaskowitz (8º Exército), Walther von Reichenau (10º Exército), Günther von Kluge (4º Exército) | 1 fonte |
| Terreno | planície aberta, sem linha de rio ou montanha que sirva de defesa contínua; a Polônia cercada pela Alemanha a oeste, a Prússia Oriental ao norte e a Checoslováquia ocupada ao sul | 2+ fontes |
| Objetivo alemão | cercar e destruir o exército polonês e tomar Varsóvia | 2+ fontes |
| Duração | 35 dias, de 1º de setembro a 6 de outubro de 1939; Varsóvia resiste até o fim de setembro e a última unidade polonesa capitula em Kock, no começo de outubro | 2+ fontes |
| Baixas — Alemanha | 16.343 mortos, 30.300 feridos, 3.500 desaparecidos; 236 tanques e 246 aviões perdidos | 2+ fontes |
| Baixas — Polônia | 66.000 mortos e 133.700 feridos | 2+ fontes |
| Baixas — URSS | 1.475 mortos e 2.383 feridos | 2+ fontes |
| Prisioneiros | cerca de 690.000 poloneses capturados na campanha; 170.000 deles no BzuraO número do Bzura vem de uma fonte só: Wikipédia em inglês, Battle of the Bzura. | 2+ fontes |
| Resultado | vitória alemã, com a invasão soviética pelo leste a partir de 17 de setembro; a resistência polonesa organizada termina em Kock | 2+ fontes |
| O depois | a palavra Blitzkrieg entra em circulação na imprensa ocidental durante a campanha; em 10 de maio de 1940 a Alemanha ataca no oeste | 2+ fontes |
Lance 1O tabuleiro: uma ferradura sem casa forte
A Polônia de 1939 tem a Alemanha a oeste, a Prússia Oriental ao norte e a Checoslováquia, já ocupada, ao sul. O país está dentro de uma ferradura. E não há, nessa borda, uma linha de rio ou de montanha que permita dizer "é aqui que se para": é planície, e a fronteira tem milhares de quilômetros.
Quem defende um tabuleiro assim escolhe entre duas posições ruins. Espalhar a tropa pela fronteira inteira e ficar fraco em todo ponto, ou recuar para o centro e entregar sem luta as regiões industriais, que ficam justamente na borda. A Polônia ficou com a primeira, e boa parte do que acontece nas cinco semanas seguintes sai dessa escolha de abertura.
Lance 2As peças: uma ponta blindada e um cabo a pé
Segundo o estudo do Exército dos EUA publicado em 1942, a Alemanha empregou ou tinha à disposição cerca de 1.250.000 homens em 60 a 70 divisões. Dessas, nove eram blindadas: cinco pesadas e quatro ligeiras. Mais de oito em cada dez divisões alemãs que entraram na Polônia eram infantaria que andava a pé, com artilharia puxada por animal.
A tabela comparativa do mesmo estudo fecha o retrato. Por divisão de infantaria, a alemã tinha 1.067 veículos a motor — e 3.859 cavalos. A polonesa tinha cerca de 5 carros de estado-maior e cerca de 2.000 cavalos. A divisão alemã tinha mais motor, e tinha também mais cavalo.
A ponta blindada era real, nova e eficiente. Mas era a ponta de uma lança cujo cabo andava na velocidade de um homem a pé. Qualquer leitura da campanha que comece pela máquina e esqueça o cabo começa pelo lado errado do tabuleiro.
Lance 3O plano: a jogada mais velha do manual
O plano alemão não era uma doutrina nova. Era a ideia mais tradicional do pensamento militar alemão: entrar pelos flancos, fechar duas pinças atrás do inimigo e aniquilar o que ficasse dentro. Cerco e aniquilamento, uma escola muito mais velha que 1939.
O que mudou foi a ferramenta. A pinça de sempre, agora com uma ponta que andava sobre lagartas e caminhões, e com aviação batendo à frente dela. A novidade estava na velocidade da ponta, não no desenho da jogada.
Na primeira semana o plano funciona quase como no papel. As colunas alemãs entram pelo norte, pelo oeste e pelo sul, a força aérea polonesa é batida nos primeiros dias, e as ligações entre os exércitos poloneses começam a se perder. Sem ligação, um exército vira vários pedaços que não sabem o que o outro está fazendo.
Lance 4Krojanty: o primeiro dia e o mito que nasce nele
Em 1º de setembro, perto da aldeia de Krojanty, na Pomerânia polonesa, a cavalaria polonesa carrega. Dali sai a história mais repetida da campanha: a de poloneses atacando tanques alemães com lança e sabre.
O registro diz outra coisa. A carga foi contra infantaria alemã, numa clareira, dispersou a unidade e ocupou o terreno. Os blindados alemães apareceram depois, e só então a cavalaria recuou, com baixas pesadas. O objetivo tático foi cumprido: as unidades do Grupo Operacional Czersk se retiraram para o sul sem perseguição, e os alemães levaram várias horas para se reorganizar.
A cavalaria polonesa levava fuzil anticarro wz. 35, de 7,92 mm, e estava sendo reorganizada em brigadas motorizadas. O cavalo, ali, era transporte — como era para a maior parte do exército alemão.
Lance 5O Bzura: a peça que ficou viva atrás da linha
A oeste havia o Exército Poznań, do general Tadeusz Kutrzeba. Ele não tinha sido derrotado; tinha sido deixado para trás. As colunas alemãs passaram ao largo, correndo para Varsóvia. Em termos de tabuleiro, ficou uma peça inteira viva atrás da linha de avanço.
Kutrzeba e seu estado-maior já tinham proposto uma ofensiva para o sul antes da invasão, e a proposta tinha sido recusada. Com o comando distante e as ligações cortadas, ele seguiu sem autorização. Em 9 de setembro, perto de Kutno, no centro da Polônia, o Exército Poznań, com o Exército Pomorze, ataca o flanco alemão ao longo do rio Bzura. A batalha, de 9 a 19 de setembro, é a maior da campanha.
Os alemães subestimaram o avanço polonês, e em 11 de setembro corrigem em grande escala: tiram da marcha sobre Varsóvia o grosso do 10º Exército, o 4º Exército, as reservas do Grupo de Exércitos Sul e aviação da 4ª Frota Aérea, incluindo a 1ª e a 4ª Divisões Panzer e um regimento de infantaria da SS recém-formado. É o lance que define a página: no 11º dia, uma campanha descrita depois como máquina sobre trilhos teve de parar a marcha sobre a capital e virar dois exércitos para o lado.
Os poloneses atacam na direção de Stryków entre 9 e 12 de setembro, e na de Łowicz entre 13 e 15. De 16 a 19, a massa alemã desviada se fecha. No auge eram 225.000 poloneses e 425.000 alemães na região — mas os 425.000 são consequência do redirecionamento, não o ponto de partida. O fim é duro: dois exércitos destruídos, entre 18.000 e 20.000 mortos, 32.000 feridos e 170.000 capturados poloneses; do lado alemão, 8.000 mortos, 4.000 capturados e 50 tanques perdidos.
Lance 617 de setembro: o tabuleiro vira
Com a frente ainda de pé e Varsóvia resistindo, a União Soviética invade pelo leste em 17 de setembro. Não é nota de rodapé: o que restava do plano polonês dependia de recuar para o sudeste e segurar uma posição até que França e Grã-Bretanha agissem no oeste. Com um segundo exército entrando por trás, esse canto do tabuleiro deixa de existir.
Varsóvia resiste até o fim de setembro; a última unidade polonesa capitula em Kock, no começo de outubro. A campanha termina em 6 de outubro, 35 dias depois do primeiro tiro, com cerca de 690.000 poloneses capturados.
Lance 7A palavra chega depois do lance
O termo Blitzkrieg aparece impresso em 1935, no periódico militar alemão Deutsche Wehr, ligado à ideia de guerra rápida; termos parecidos circulavam em inglês e em outras línguas desde os anos 1920. O que o grudou nesta campanha foi a imprensa ocidental: em setembro de 1939 a revista americana Time descreveu a ação alemã como "a war of quick penetration and obliteration — Blitzkrieg, lightning war", e a imprensa britânica adotou o termo para os sucessos alemães na Polônia.
A palavra nunca foi termo militar oficial da Wehrmacht, exceto na propaganda, e nunca foi adotada como conceito ou doutrina. Hitler a chamou de "ein ganz blödsinniges Wort" — uma palavra completamente idiota — e, em novembro de 1941, disse nunca tê-la usado. O historiador alemão Karl-Heinz Frieser sustenta que o pensamento que hoje se chama Blitzkrieg só se formou depois da campanha no oeste, em 1940: consequência da vitória, não causa dela.
VereditoPor que deu no que deu
A campanha da Polônia foi vencida rápido, em grande escala e por completo, contra um adversário invadido por dois lados. Isso não está em discussão. O que o tabuleiro mostra é como ela foi vencida: por um exército em que mais de oito de cada dez divisões andavam a pé, executando um plano de cerco e aniquilamento que era tradicional, com uma ponta blindada nova na frente.
E mostra que o plano não correu sozinho. No 11º dia, o alto-comando alemão teve de desviar a marcha sobre a capital para conter um contra-ataque que não previu — e esse contra-ataque também era improviso, lançado por um general sem autorização. Os dois lados estavam improvisando.
Os alemães tinham doutrina, e boa: a de cercar e destruir. O que não havia era a doutrina chamada Blitzkrieg. O resultado veio primeiro; o nome veio depois, dado pela imprensa estrangeira enquanto a campanha acontecia. No xadrez, não foi uma abertura preparada em casa e jogada de cor — foi uma partida vencida no tabuleiro e analisada depois, até virar livro de aberturas.
MitosO que se conta e o que o registro mostra
- O que se conta
A cavalaria polonesa carregou contra tanques alemães com lanças e sabres.
O que o registro mostraEm Krojanty, em 1º de setembro de 1939, a carga foi contra infantaria alemã, numa clareira, e cumpriu o objetivo: dispersou a unidade e cobriu a retirada do Grupo Operacional Czersk. Os blindados chegaram depois. A cavalaria polonesa levava fuzil anticarro wz. 35 e estava sendo motorizada. A versão das lanças contra tanques nasceu na cobertura da época e foi usada pela propaganda alemã.
- O que se conta
A Alemanha invadiu a Polônia com um exército motorizado, uma máquina moderna contra um exército a cavalo.
O que o registro mostraDas 60 a 70 divisões alemãs, nove eram blindadas. A divisão de infantaria alemã tinha 3.859 cavalos, contra cerca de 2.000 na polonesa — quase o dobro. Era infantaria a pé com uma ponta blindada na frente.
- O que se conta
A Wehrmacht entrou na Polônia executando uma doutrina nova e secreta chamada Blitzkrieg.
O que o registro mostraA palavra nunca foi termo oficial da Wehrmacht fora da propaganda, nem doutrina. Foi popularizada pela imprensa ocidental durante a campanha, e Hitler a chamou de "uma palavra completamente idiota". O plano era o tradicional cerco e aniquilamento; Karl-Heinz Frieser sustenta que o pensamento Blitzkrieg só se formou depois de 1940.
PerguntasPerguntas frequentes
Quando foi a invasão da Polônia?
A Alemanha invadiu em 1º de setembro de 1939, e a União Soviética entrou pelo leste em 17 de setembro. A campanha durou 35 dias: Varsóvia resistiu até o fim de setembro, e tudo terminou em 6 de outubro, depois da capitulação da última unidade polonesa em Kock.
Quantos soldados morreram na invasão da Polônia?
A Polônia teve 66.000 mortos e 133.700 feridos, e cerca de 690.000 poloneses foram capturados. A Alemanha perdeu 16.343 mortos, 30.300 feridos e 3.500 desaparecidos; a União Soviética, 1.475 mortos e 2.383 feridos.
A invasão da Polônia foi uma Blitzkrieg?
Não como doutrina. O plano alemão era o tradicional cerco e aniquilamento, executado por um exército em que só nove de 60 a 70 divisões eram blindadas. A palavra Blitzkrieg foi popularizada pela imprensa ocidental durante a campanha e nunca foi doutrina da Wehrmacht.
A cavalaria polonesa atacou tanques com lanças na invasão da Polônia?
Não. Em Krojanty, em 1º de setembro de 1939, a carga foi contra infantaria alemã e cumpriu o objetivo; os blindados chegaram depois. A versão das lanças contra tanques nasceu na cobertura da época e foi usada pela propaganda alemã.
Qual foi a maior batalha da invasão da Polônia?
A do rio Bzura, de 9 a 19 de setembro de 1939. O contra-ataque do general Tadeusz Kutrzeba obrigou os alemães, em 11 de setembro, a desviar da marcha sobre Varsóvia; no fim, 170.000 poloneses foram capturados ali.
A Blitzkrieg não existia: o que a Polônia de 1939 mostra
MaisLeia também
FontesFontes
- Digests and Lessons of Recent Military Operations: The German Campaign in Poland, September 1 to October 5, 1939. United States Government Printing Office, Washington, 1942.
- Invasion of Poland — Wikipédia em inglês. — en.wikipedia.org
- Battle of the Bzura — Wikipédia em inglês. — en.wikipedia.org
- Charge at Krojanty — Wikipédia em inglês. — en.wikipedia.org
- Blitzkrieg — Wikipédia em inglês. — en.wikipedia.org
- Karl-Heinz Frieser, The Blitzkrieg Legend: The 1940 Campaign in the West (citado pela Wikipédia em inglês).
Imagens
- Fig. 01 — Infantaria alemã em marcha a pé durante a campanha da Polônia, 1939. Mais de oito em cada dez divisões alemãs andavam assim.: Fotógrafo desconhecido · Narodowe Archiwum Cyfrowe, sygn. 2-39 · Domínio público
- Fig. 02 — Mapa alemão de época com as direções de ataque na Polônia em setembro de 1939. O círculo tracejado em torno de Kutno fica na região do Bzura.: Autor desconhecido · Narodowe Archiwum Cyfrowe, sygn. 2-1 · Domínio público
- Fig. 03 — Cavalaria polonesa em Sochaczew, cidade às margens do Bzura, 1939.: Fotógrafo desconhecido · Domínio público
- Fig. 04 — Artilharia e carroças polonesas abandonadas na margem do Bzura, setembro de 1939. Tração animal, dos dois lados do rio.: Fotógrafo desconhecido · Narodowe Archiwum Cyfrowe, sygn. 2-150 · Domínio público
- Fig. 05 — Oficial alemão e oficiais soviéticos se encontram na Polônia, setembro de 1939. Depois de 17 de setembro, a campanha tinha duas frentes de invasão.: Correspondente de guerra da TASS, não identificado · Domínio público
- Fig. 06 — Prisioneiros de guerra poloneses, 1939. A campanha terminou com cerca de 690.000 capturados.: Autor desconhecido · Domínio público
